Coração do Mato

Após a Segunda Guerra Mundial, países como a Inglaterra, França, Itália e Alemanha começavam a se reerguer. Quase toda indústria automobilística havia utilizado suas unidades fabris para fins bélicos. E aos poucos voltavam às atividades normais produzindo modelos já antiquados que existiam antes do conflito ou novos, mas com poucas modificações.

E, por causa da guerra, o Jeep fabricado pela Willys americana, e bastante utilizado no fronte, havia influenciado muito a paisagem e a indústria local. E vários exemplares do exército americano ficaram na Europa.

Esta influência foi tanta que cada país envolvido no conflito quis fabricar o seu. Aconteceu assim com a Inglaterra que começou a produzir o mundialmente conhecido Land Rover e o Austin Champ. A Alemanha por sua vez fez o Munga, conhecido aqui em nossas terras como Candango. A França por sua vez fez o Delahaye VLR. A maioria destes desconhecida mesmo para aqueles aficionados por este tipo de veículo.

Outro muito desconhecido era o Alfa Romeo AR (Autovettura da Ricognizione, ou veículo de reconhecimento) que mais tarde, devido à publicidade que anunciava que poderia ir a qualquer lugar, ficou conhecido como Matta. Quem normalmente pensa em Alfa Romeo lembra-se imediatamente de carros esportes, de dois lugares, duplo comando no cabeçote, cambio de cinco marchas com ótima posição e muita aceleração e velocidade. Fora o charme. Mas esta grande fábrica italiana não deixou passar em branco sua aventura no fora de estrada. Na verdade foi uma concorrência feita pelo Ministério da Defesa para a produção de um fora de estrada capaz de abastecer as forças armadas do país.

O pequeno utilitário nasceu em 1951. A grade frontal era dividida em seis entradas verticais, que formavam harmonicamente o grande “Cuore” e, acima dela, o escudo da fabrica. Ao lado desta estavam faróis circulares que poderiam vir com grade protetora e abaixo as luzes de sinalização de direção. Completava a frente para-lamas de desenhos simples, mas robustos. A tampa do capô tinha uma inclinação curva muito discreta.

O Matta, que também quer dizer louca em italiano, era um 4 x 4, tinha 3,520 metros e pesava 1.250 quilos sem acessórios bélicos. A carroceria era apoiada em chassi em aço, com longarinas e travessas soldadas. Havia também uma armação para a montagem da capota de lona. Uma versão perua chegou a ser fabricada em pequena escala. Os para-choques eram muito simples assim como todo o desenho da carroceria. A partir dos para-lamas dianteiros tinha chapas lisas e planas.

Na versão militar o pneu sobressalente ficava sobre o capô. Na versão civil atrás dos bancos dianteiros. Perpendicular a estes havia mais dois bancos bem rústicos para abrigar mais quatro passageiros. Piquenique completo para a família saborear com vinho Chianti e espaguete.

O motor, herdado do esportivo 1900 Super Sprint, era um quatro cilindros em linha, refrigerado a água, bloco em ferro fundido e cilindrada de 1.884 cm³. O virabrequim tinha cinco mancais, as câmeras de combustão eram hemisféricas, as válvulas no cabeçote inclinadas a 90º. E dois comandos como era costume da casa de Milão. Sua potência era de 64 cavalos a 4.400 rpm. Era alimentado por um carburador Solex de corpo simples. A taxa de compressão foi reduzida a 7:1.

Ao contrário da maioria dos carros da marca, sua caixa tinha quatro velocidades. A primeira não era sincronizada. A segunda e terceira muito curtas. Na última levava o bravo a honrosos 105 km/h.

A transmissão era 4 x 4, mas a dianteira podia ser desconectada ou acionada a partir de uma pequena alavanca posicionada ao lado da alavanca de marchas. E fazia bonito. Na época do lançamento as demonstrações incluíram escadas íngremes de acesso a monumentos históricos como a Basílica de Assis e escaladas em montanhas dos Alpes no norte da Itália. E era muito disposto para exercer funções pesada e aclives e declives acentuados.

Sua suspensão dianteira tinha rodas independentes, quadriláteros transversais e barras de torção longitudinais. Atrás robustos feixes de molas. Segundo a fábrica poderia passar por valas de até 700 milímetros. Os pneus eram da marca Pirelli na medida 6,40 x 16. Os quatro freios eram a tambor. Um de seus concorrentes na Itália era o Fiat Campagnola.

O painel, simples, mas correto, trazia velocímetro graduado até 120 km/h, marcador de pressão de óleo, nível de combustível e temperatura de água. Não tinha luxo nenhum e todos os mostradores eram afixados diretamente na chapa. Havia ainda uma pequena bandeja que poderia servir para apoio de mapas. O grande volante tinha três raios e era adequado a proposta. Os bancos eram muito simples, de material rústico e rebatíveis para melhorar o acesso à parte de trás.

Parte interessante da história deste automóvel pouco comum foi à participação em 1952, da famosa prova Mille Miglia. Neste ano havia sido criada uma categoria para veículos militares. Só neste ano. Dois modelos Matta concorreram com mais dois Fiat Campagnola. Um Matta chegou em primeiro conseguindo uma ótima média de 92,00 km/h.

Foram produzidos 2.059 exemplares deste raro e autêntico Alfa Romeo até 1955. A maioria foi para o Ministério da Defesa, mas também para a aeronáutica, marinha, Ministério dos Transportes e da Agricultura. Só 116 Matta foram parar nas mãos de particulares.

Hoje são peças muito raras.

Texto e montagem Francis Castaings. Fotos de divulgação e Museu Alfa Romeo Itália

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