Acima de qualquer limite

Desobedecendo as leis da física

Esta fora de discussão que o esporte favorito do brasileiro é o futebol e há anos a imprensa e em papos de mesas falam sobre o futebol arte. Este é um futebol jogado por atletas pouco comuns como o saudoso Manuel dos Santos mais conhecido como Mané Garrincha. Ele protagonizou cenas inimitáveis, passos e passes de mestres, dribles incríveis e gols fenomenais. Fez a diferença e o público sempre aguardava com ansiedade uma façanha.

O mesmo se pode ver de alguns pilotos de corridas de carro, que protagonizam o espetáculo e o estado da arte ao dirigir. Que desafiaram os limites e regras em retas, curvas e chuvas. Arriscavam suas vidas e infelizmente alguns a perdiam.

Desde os primeiros tempos do século passado as corridas fascinavam o público em circuitos de rua, estradas ou autódromos. O italiano Tazio Nuvolari na década de 30 fez fama de piloto audaz. Brincadeiras a parte diziam que até em cima de uma bicicleta era um perigo até mesmo porque era um campeão de motociclismo. Outro também que fazia a diferença nas pistas na mesma época de Nuvolari era o alemão Rudolf Caracciola.

Na década de 50 podemos citar nomes como Juan Manuel Fangio (conheça)  e Stirling Moss (saiba mais) . Na seguinte, em 60 havia uma renovação com nomes de muito brilho como Phil Hill, Dan Gurney, Bruce McLaren, John Surtees, Graham Hill, Jack Brabham, mas o piloto da década vestia um capacete azul com aba branca, era escocês e se chamava Jim Clark. Infelizmente morreu numa prova de Fórmula 2 em Hockenheim na Alemanha em Abril de 1968.

A década de 70 foi marcada por muitas mortes e também por talentos que até hoje são referência como John Young Stewart mais conhecido como Jack Stewart também escocês que foi três vezes campeão mundial. Saiu de cena desolado e o motivo maior foi a perda do colega, amigo e piloto francês François Cevert.

Na metade da década a turma era muito boa e heterogênea. Traziam na equipe de Ken Tyrrell o sul africano Jody Scheckter e o francês Patrick Depailler. Na Lotus de Colin Chapman estavam o veloz sueco Ronnie Peterson que era um dos que faziam os entusiastas pregar os olhos na TV e o competente belga Jacky Ickx. Na McLaren comandada por Teddy Mayer estavam nosso campeão Emerson Fittipaldi e Jochen Mass. Na Ferrari a grande promessa Niki Lauda (saiba mais) e o Ítalo-suiço Clay Regazzoni que junto com Peterson alegravam mais as manhãs de domingo. Na Brabham o argentino: Carlos Reutemann e nossa grande promessa José Carlos Pace. Na principiante Hesketh, pertencente a um Lord milionário pilotava o inglês James Hunt e na preta Shadow o francês Jean-Pierre Jarier, apelidado em seu país natal de galocha de chumbo por ter o pé muito pesado. 

Porém um rapaz franzino vindo do Canadá que estreou em 1977 mudaria muito a atenção da Fórmula Um. Este jovem de 27 anos chamava-se Joseph Gilles Henri Villeneuve e havia nascido em 18 de janeiro de 1950 na pequena cidade de Saint-Jean-sur-Richelieu na província francesa de Québec, no Canadá.

Dirigiu um furgão pela primeira vez aos onze anos de idade e ficou maravilhado. Estava autorizado pelos pais a conduzi-lo dentro das dependências da fazenda da família. A partir deste tudo que se movia por motor traria entusiasmo a Gilles, até um cortador de grama transformado para correr mais.

Aos dezesseis anos de idade ganhou de seu pai um MGA 1958 para se divertir e nesta época também teve um sério acidente com um Pontiac Grand Prix 1966 paterno. Felizmente não se machucou quanto ao carro ficou imprestável. Nesta época já morava na pequena cidade de Berthierville. Também fez provas de arrancadas com um Ford Mustang Boss 1969. Abaixo o museu Ford em Québec uma sala faz homenagem a Gilles

Na região muito fria, principalmente no inverno logo começou a tornar-se intimo das motoneves que são muito semelhantes à Jet skis

Ganhou várias provas e foi contratado pela empresa Skiroule para ser o piloto mecânico oficial, mas sonhava mais alto, pois lia com frequência revistas europeias e sonhava participar de corridas de fórmulas monopostos.

Já em 1971 era contratado pela Motoski que lhe pagaria um salário melhor. Gilles já estava casado com Joann e o casal esperava seu primeiro filho que viria a se chamar Jacques. Sagrou-se campeão de Québec e também campeão do mundo na classe até 440 cm³ em motoneve. No ano seguinte em 14 competições venceu 10 tornando-se novamente campeão. Morava numa Motorhome e se deslocava com facilidade para as competições, porém quando não tinha neve à situação financeira se complicava e foi aconselhado a tentar se impor no esporte automobilístico. Se inscreveu na Escola do mundialmente famoso Jim Russell que já preparava pilotos desde 1969 em Mont Tremblant a noroeste de Montreal. Além de Gilles Villeneuve também passaram por ela Emerson Fittipaldi, Jenson Button e próprio filho de Gilles, Jacques Villeneuve. Apresentou-se num dia chuvoso e deu um show de pilotagem o que aconteceu também na segunda vez logo tirando sua licença para correr na Fórmula Ford local.

Em 1973 em 10 corridas na modalidade ganhou sete e se tornou campeão. A família por usa vez aumentava com a chegada da filha Melanie.

Logo o jovem piloto já era conhecido por sua rapidez e audácia e conseguiu um March equipado com motor Ford para disputar o Campeonato de Fórmula Atlantic.

Fez uma temporada fraca por problemas em 1974, média em 1975 e ótima em 1976. Nesta chamou a atenção da imprensa mundial. Pilotos famosos da Fórmula Um foram convidados a participar e nomes do quilate de James Hunt, Jean-Pierre Jarier, Riccardo Patrese, Patrick Depailler, Jacques Laffite, foram correr no circuito de rua de Trois-Rivières. Gilles simplesmente não se incomodou com a presença deles e deixou todos para trás até que seu carro quebrar por problemas mecânicos. Porém sagrou-se campeão da categoria mais conhecida como IMSA Formula Atlantic Players Championship Series com um March Ford da Equipe Canadá.

No ano seguinte foi convidado por Ron Denis para pilotar um March de Fórmula 2 na Europa no Circuito de Pau na França. Lá ia pilotar um March 762 com motor Hart e enfrentar pilotos profissionais da Fórmula Um que também participavam deste campeonato importante europeu. Eram os franceses René Arnoux, Patrick Tambay, Jacques Laffite e o americano Eddie Cheever. Houve problemas de superaquecimento no motor e não completou a prova.

Em 1977 continuava na Fórmula Atlantic quando outra vez foi chamado por Ron Dennis e Teddy Mayer para pilotar o terceiro carro da equipe Mclaren. Iria disputar o Campeonato Mundial de Formula Um por uma equipe importante e à partir da 10ª Prova, a inglesa em Silverstone. Não foi bem na prova, James Hunt ganhou com um Mclaren Ford, mas chamou muito a atenção de um dos personagens mais importantes de todos os tempos da Fórmula Um:

O patrão da Ferrari, o senhor Enzo que gostou muito de seu modo agressivo de dirigir que o fez lembrar de Tazio Nuvolari e Stirling Moss. Levou-o para Fiorano para fazer um teste e logo o aprovou. Iria ser companheiro na escuderia do argentino Carlos Reutemann já que o austríaco Niki Lauda saia da equipe italiana por insatisfação. Neste ano havia sido a estreia do Lotus 78 e seu efeito asa fazendo revolução na categoria.

Na Fórmula Um nesta época era muito importante falar línguas e vindo de um país  bilíngue, não era regra todos os canadenses saberem muito bem o inglês e o francês, mas  Gilles falava.

Em sua segunda prova uma grande infelicidade iria marcá-lo muito. Ao tentar ultrapassar a Tyrrel P34 de Ronnie Peterson, perdeu o controle da Ferrari 312 T que literalmente levantou voo e caiu sobre dois espectadores que morreram na hora. Dias depois após analises dos diretores de prova Gilles foi inocentado.

A temporada de 1978 começava com a Ferrari ganhando no Brasil nas mãos de Reutemann e na quarta prova o argentino tornava a ganhar com uma ajuda importante de Gilles. Também ficou em primeiro na Inglaterra em Brands Hatch e em Watkins Glen nos Estados unidos. Na última prova do campeonato, no Grande Prêmio do Canadá na Ilha de Notre Dame em Montreal Gilles chegava em primeiro diante de seu público. Era uma vitória muito especial para um piloto que começava a ir rumo ao sucesso e um momento de tranqüilidade financeira ia começar para a família que já passava por inúmeras dificuldades.

O ano de 1979 se tornaria marcante na carreira de Gilles. A francesa Ligier-Ford ganhou as duas primeiras provas na Argentina e no Brasil com Jacques Laffite e Gilles ganharia com o modelo 312 T3 às duas seguintes em Kyalami na África do Sul e em Long Beach nos Estados Unidos onde deu um show. Mas o espetáculo maior foi em Dijon na França quando duelou com René Arnoux em seu Renault Turbo RS01 disputando a segunda posição. Foram uma das três últimas voltas mais disputadas da história da Fórmula Um. Revezaram-se de posição, tocaram rodas, saíram de traseira e não tirando o mérito do francês, Gilles mostrou neste dia ao mundo que era um acrobata dentro de um carro.  O público vibrou e se levantou para ver este raro duelo.

O outro piloto da Renault, Jean-Pierre Jabouille, ganhou a prova e Gilles ficou em segundo nesta e no campeonato. Seu companheiro de equipe era o sul africano Jody Scheckter ficou com o título no final desta temporada com a Ferrari 312 T4 e que contou com a estréia do brasileiro Nelson Piquet na Brabham-Alfa Romeo que era companheiro de equipe de Niki Lauda.

Também no Grande Prêmio da Holanda, em Zandvoort, o monoposto teve seu pneu esquerdo traseiro estourado saindo da pista. Para espanto de todos Gilles andou rápido em três rodas e o que restava do pneu e da roda foram se acabando no caminho até a chegada nos boxes onde o pessoal que cuidava de seu carro teve que insistir muito dizendo que seria impossível sua volta devido ao estado em que ficará a suspensão.

No ano seguinte Gilles já era muito admirado na equipe italiana e tratado com carinho especial pelo Comendador, já com 82 anos, que o via como um filho. Mas foi um ano muito fraco para a equipe italiana, era o modelo 312 T5 muito problemático em termos de mecânica e chassi, o novo modelo 126 C ainda não havia estreado e o canadense sofreu um acidente com estouro de pneu a 280 km/h em Imola na Itália. E um ano muito bom para os carros que eram equipados com o clássico e robusto motor com oito cilindros em "V” da Ford-Cosworth. As primeiras posições ficaram com a Williams, com Brabham e com a Ligier.

Em 1981 Gilles Villeneuve teria como companheiro de equipe o francês Didier Pironi que também era muito bom e agressivo e a Ferrari seguia o exemplo da Renault construindo seu motor turbo. O modelo 126 C foi bem sucedido em Monte Carlo onde Gilles brilhou em primeiro lugar e na prova seguinte em Jarama na Espanha. O piloto daria mais um espetáculo em sua terra, no GP do Canadá de 1981, quando, sob uma tempestade, danificou seu aerofólio, mas não parou seu carro.

Após uma batida não foi ao box para reparar a parte dianteira. Insistiu apesar da baixa visibilidade não baixando muito seu tempo. A corrida foi vencida pelo francês Jacques Laffite com o Ligier-Matra e o homem espetáculo ficou em terceiro lugar sendo fortemente aplaudido.

Em 1982 era clara a rivalidade nas pistas entre Pironi e Villeneuve, mas também, contrariando a competição eram cúmplices e amigos. Outra demonstração de pilotagem fora do comum era dada por ambos no Grande Prêmio de San Marino em Imola na Itália. Numa temporada que a Ferrari não havia começado bem, apesar do carro bem projetado por Harvey Postlethwaite, Villeneuve estava em primeiro seguido por Pironi quando ambos receberam ordem dos boxes para diminuir o ritmo. Já estavam com a dobradinha garantida e o consumo da Ferrari era alto. Queriam vencer com tranquilidade. Houve uma confusão na cabeça dos pilotos que começaram um duelo fantástico, mas pouco amistoso depois que ultrapassaram Prost que teve o motor estourado. O público ganhou, mas a amizade acabou. Pironi foi o vencedor da prova e não recebeu os cumprimentos de Gilles.

Acirrada a disputa, na prova seguinte, na Bélgica em Zolder nos treinos de qualificação, o grande Gilles Villeneuve fez uma ultrapassagem mal feita sobre o alemão Jochen Mass, sofre um grave acidente e morre. Era um sábado, 8 de maio de 1982.

Causou grande comoção na família deixando Joann, Jacques e Melanie, na equipe Ferrari e em todo circo da Fórmula.

O comendador Enzo Ferrari até sua morte em Maranello em 14 de agosto de 1988 tinha uma foto do canadense sobre sua mesa e esta permanece até hoje. Há também uma estatua em bronze na pista de testes e o circuito de Fórmula Um no Canadá leva seu nome.

Foi muito popular, simpático, sincero e um dos mais hábeis pilotos de todas as gerações da categoria maior do automobilismo mundial. O Príncipe como era também conhecido nos deu de presente um conto de fadas em alta velocidade.

Em 8 de maio de 1982, Gilles Villeneuve nos deixava

Veja o filme épico de 1979 de Gilles Villeneuve versus Rene Arnoux em Dijon, França

Textoe montagem Francis Castaings. Fotos de divulgação.                                                               

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