André Gustave Citroën: Das Engrenagens a Automóveis Distintos
O final do século XIX e princípio do século XX foram marcados pelas novas máquinas da Revolução Industrial e de homens intrépidos. Tanto nos Estados Unidos quanto na Europa surgiram nomes que ficaram famosos no mundo do automóvel e até hoje brilham nas ruas e pistas do mundo. Infelizmente algumas não sobreviveram devido a crises e também por desprezarem novas empresas pensando serem inabaláveis. A poluição chegava, mas também a quantidade de empregos era enorme e havia prosperidade. Há sempre perdas e ganhos.

Nos Estados Unidos o nome Ford até hoje está presente graças ao fundador da marca Henry Ford. Já na velha Europa, precisamente em solo francês outra marca sempre foi destaque apesar de pertencer ao Grupo Peugeot desde a década de 70.

É a Citroën fundada por André Gustave Citroën que começou fabricando grandes engrenagens para aplicações diversas no mundo industrial desde o final do século XIX.

André, nascido em fevereiro de 1878 em Paris cinco anos após a chegada de seus pais em território francês. Seu pai era holandês e trabalhava com pedras preciosas especializado em diamantes e a mãe polonesa. Nesta época a França recebia muitos imigrantes de toda a Europa graças à prosperidade de novas indústrias.

Aos 22 anos graduava-se na famosa Escola Politécnica de Paris que rivalizava com outra também muita famosa Arts et Métier. De fácil convívio orgulhava-se de suas origens e numas de suas viagens à terra natal de sua mãe, reencontrava um parente que processava farinha e neste usava enormes engrenagens para moer.

Observador e criativo, este homem genial logo as aperfeiçoou, as fundiu em aço criando desta forma os dentes duplos em forma de “V” que seria eternizado como símbolo da marca de carros Citroën: O duplo “Chevrons”. Estas, em forma helicoidal anulam o esforço axial. O sucesso seria imediato e clientes na França, Itália e Suécia logo fizeram à encomenda. A empresa estava criada em 1905 começava a prosperar.

Três anos depois, apaixonado pelas máquinas com quatro rodas que começava a mudar as paisagens das ruas da Europa passava a dirigir a Societé Automobile Mors dos irmãos Louis e Emile Mors que já haviam obtido sucesso em corridas de longa distância como Paris-Berlim e Paris-Madrid. Muito dinâmico e com bom censo de organização passava a modernizar a administração da empresa que em 1908 havia produzido 300 unidades do Tipo N, um automóvel familiar com carroceria aberta, luxuoso e simples de dirigir.

Em 1912 André Citroën partia para os Estados Unidos para conhecer os métodos de produção de Henry Ford. Foi muito bem recebido por este homem e ambos tornaram-se amigos. Nesta época havia comprado terrenos no Cais de Grenelle, na região parisiense e erguido instalações muito grandes e modernas. De volta a França começava a aplicar os métodos da produção em série de Ford e a produção passava a mais de 800 unidades anuais, significativo naquela época.

Também melhorava muito a condição de vida de seus operários. Dentro da área da fábrica foi construída creches e cantinas para os trabalhadores que a partir de sua iniciativa passaram a admirá-lo

Em 1914 infelizmente começava a Primeira Grande Guerra Mundial afetando a vida da maioria dos cidadãos da Europa. De um lado a França, o Reino Unido da Grã-Bretanha e a Rússia. Do outro a Tríplice Aliança formada por Alemanha, Itália e o Império austro-húngaro. Toda a produção da fábrica se voltava para os armamentos, pois Citroën era um homem extremamente patriota. Queria servir ao seu país e em sua linha de montagem eram produzidas balas, mais precisamente morteiros (obus).

Em 1915 sua produção diária era de 10.000 peças feitas por 13.000 empregados que foram muito bem treinados, pois a produção era delicada e sofisticada. Tinha de ser de altíssima qualidade e no final do conflito, em 1918, a produção chegou a espantosos 34.000 unidades por dia.

Ao final da guerra tinha pensamento fixo em duas propostas: fabricar carros de qualidade principalmente para o grande público e expandir sua produção para um continente em que ele admirava e amava: A África.

O carro a ser produzido teria capacidade de transportar com relativo conforto quatro pessoas, fácil de manter e dirigir e potente suficiente para enfrentar aclives de grandes cidades e estradas. Leve e pequeno nascia o Citroën Tipo A que seria o primeiro carro produzido em série na Europa.

Este com carroceria tipo Torpedo tinha capota de lona, motor de 4 cilindros em linha, 1.327 cm³ de cilindrada e potência de 18 cavalos a 2.100 rpm alcançando a velocidade máxima de 65 km/h. Estava disponível em vários tipos de carroceria inclusive um com três lugares sendo que o terceiro banco estava alojado logo atrás do principal. Visto de cima tinha formato em gota e aspecto esportivo. Fez enorme sucesso. O conversível era padronizado como “O carro da mulher Elegante” da grande cidade.

Desenvolvido pelo competente engenheiro Jules Salomon que já utilizava alumínio na carroceria, partida elétrica, faróis idem e cinco pneus Michelin com câmeras de ar. Uma revolução nesta década.

De tão robusto e confiável este carro era chamado Coupé Docteur em referência a um carro de médico que não poderia falhar em seus atendimentos.

Nesta época em Paris já circulavam mais automóveis do que em qualquer outra cidade da Europa e até mesmo dos Estados Unidos onde os Ford T preenchiam as ruas e avenidas. Pouco distante de Grenelle, nas margens do Rio Sena, do mesmo lado do grande monumento parisiense a Torre Eiffel, nos grandes prédios de Javel eram produzidos inicialmente quinze carros por dia e já no final de 1919 chegavam ao dobro deste número. O modelo B2, com vidros laterais e um pouco mais equipados também estava à disposição da clientela. Outra marca registrada do patrão eram suas propagandas. Abaixo um Citroën Caddy Sport de 1923
Sejam desenhos ou fotos sempre traziam belas mulheres bem vestidas de acordo com a moda. Também era destaque no marketing. Uma criação genial foi a réplica de seu modelo A em escala ½ movido a pedais para as crianças. Seriam os futuros compradores da marca.

No começo dos anos 20 a marca diversificava seus produtos, alguns com capota rígida, denominado “Todo em aço” e motores mais potentes. Já haviam sido produzidos cerca de 12.200 carros nas Usinas Citroën.

Quanto à África Citroën queria fazer um reconhecimento de mercado e havia recrutado homens de destaque das forças armadas que haviam se destacado na guerra. Junto deles também iriam pessoal de fábrica capacitados como engenheiros, mecânicos e pilotos. Esta epopéia chamada de Expedição Citroën África Central ficou conhecida com Cruzeiro Negro e também tinha intenções cientificas, culturais e políticas. Na época a França tinha várias colônias neste imenso continente.

Os modelos especialmente preparados tinham rodas direcionais comuns, mas atrás lagartas como os tratores de esteiras. O sistema criado pelo engenheiro militar francês Adolphe Kégresse, acima, foi muito eficaz e os carros não apresentaram nenhum problema relevante. Tinham motor de quatro cilindros em linha, 1.628 cm³ e 30 cavalos a 3.000 rpm. Tinha caixa com três velocidades não sincronizadas e sendo duas reduzidas. Sua velocidade final não passava dos 50 km/h, porém enfrentava com facilidade lama, terra e montanhas abruptas.

Várias tentativas anteriores bem sucedidas já haviam sido feitas, mas agora o objetivo era atravessar o deserto do Saara, mas foram muito além. Partiram do Forte Colomb-Béchar na Argélia em 8 de outubro de 1924 oito veículos extremamente equipados com potência maior, rodaram cerca de 28.000 quilômetros em cinco meses, foram até Madagascar no Oceano Indico e voltaram para Paris no dia 25 de junho de 1925.

Neste ano a empresa já tinha perto de 5.000 representantes seja para venda de carros prontos ou peças na Inglaterra, Bélgica, Itália e Alemanha. Eles tinham catálogos, cartazes e panfletos para a divulgação da marca. O serviço comercial era muito ativo e eficaz. Empregava cerca de 20.000 operários espalhados nas unidades de Levallois,
Suresnes, Clichy, Saint Ouen, Grenelle e Gutenberg que forneciam peças para a montagem final em Javel. O modelo B2 que era um Tipo A melhorado, mais potente tinha diversos tipos de carroceria inclusive uma picape que podia ter o teto removido e era sucesso entre os empreendedores rurais.
Em julho de 1924 os parisienses mais uma vez eram surpreendidos pela vivacidade de André Citroën. Iluminou a Torre Eiffel com as letras compostas por seu nome e logotipos da marca antecipando sua participação na Exposição de Artes Decorativas de 1925. E esta iluminação orientou e ajudou o audaz aviador americano Charles Lindbergh na travessia do Atlântico Norte em maio de 1927. Abaixo um 5CV de 1925
Nesta época também já estavam espalhadas por toda a França as placas de sinalização inventadas pelo gênio para orientar motoristas. Eram grandes, bem visíveis e tinham desenhos, nomes das cidades e indicação de quilometragem. Eram os famosos “Painéis Citroën”. Abaixo um C4 Limousine

Em 1928 era a vez do C6 entrar em cena. Com carroceria fechada com quatro portas, duas, capota de lona ou “Coach” esportivo era o concorrente francês do Ford modelo A. Abaixo um modelo B14 G de 1928
Foi o primeiro da marca a ser equipado com motor de seis cilindros em linha e na grade do radiador tinha a inscrição SIX bem destacável. Com a linha muito diversificada, já saia das linhas de montagem ônibus e caminhões.

Nem tudo eram flores na vida de André Citroën. Era um homem bem casado com Georgina Bingen com quem teve quatro filhos. Era muito dedicado a eles e muito generoso, mas tinha um fraco por mesas de baralho e jogos. Era frequentador assíduo do chique Casino de Deauville no norte da França. Independente do jogo chegava a presentear com carros funcionários e até adversários. E também perdia e ganhava muito dinheiro, as apostas eram muito altas. Também gostava da vida noturna parisiense que era efervescente nesta época da “Belle Époque”.

Em 1929 mais de 100.000 veículos haviam saído das linhas de produção da Citroën.

Em 1931, após o bem sucedido Cruzeiro Negro era a vez de avançar para a Ásia rumo a Pequim no Cruzeiro Amarelo ou Missão Ásia Central. Desta vez até a famosa revista norte-americana National Geographic Society. A viagem começou em abril e terminou em 12 de fevereiro de 1932 passando por Beirute, Hanói, Saigon, Bangkok, Calcutá, Nova Déli e Bagdá. Foram mais de 30.000 quilômetros e os carros provaram mais uma vez sua robustez.

Abaixo Citroën C6G 1931

Aproveitou destas epopeias e também fabricou, em pequena escala, brinquedos. Eram dioramas com cenários das aventuras na África e na Ásia. Abaixo um Six fabricado entre 1928 e 1932

Desde a época da criação da empresa André foi um homem que investiu muito e gastava mais que recebia independente de seus gastos pessoais e jogos de azar. A empresa vendia bem seus produtos, mas os investimentos em modernização eram altos. Para piorar a crise de 1929 que abalou os Estados Unidos, mas também o mundo inteiro inclusive a França, não poupou sua empresa. As dividas eram grandes, André tentou sem sucesso um acordo com os bancos e sindicatos, mas em 1934 foi declarada a falência judiciária.
Após muita relutância em 1935 o empresário passava suas ações à família Michelin fabricante de pneus e com muito destaque em toda a Europa. Era a única forma de salvar mais de 250.000 empregos.
Com 56 anos de idade, doente, foi internado em uma importante clínica em fevereiro vindo a falecer em 3 de julho de 1935 vitima de um câncer no estômago.
Antes de sua morte ele foi condecorado com a Ordem Nacional da Legião de Honra como Cavalheiro, Comandante e Grande Oficial pelos seus feitos pela França.
Morreu muito jovem este brilhante homem que aproveitou pouco do sucesso de uma das maiores obras da empresa, o modelo Traction e de outros como o 2CV e o DS. Até hoje seu nome é reverenciado em território francês.

Desde 1992, no local da principal fábrica, Javel, existe um belíssimo parque com enormes áreas de lazer e grandes estufas com plantas de todo o planeta homenageando o pioneirismo da empresa em grandes viagens.


